Secretarias de Missões nas Assembleias de Deus: Autonomia Local e Cooperação Nacional
O modelo missiológico das Assembleias de Deus no Brasil desenvolveu-se de forma distinta das denominações históricas tradicionais. Pautado pelo crescimento descentralizado e pela força dos "ministérios" ou "campos" (igrejas-mãe autônomas que gerenciam suas próprias filiais), o envio de missionários no contexto assembleiano não depende de uma única junta centralizadora.
Embora existam órgãos de assessoria e estatística em nível nacional, cada grande ministério possui a prerrogativa de fundar, financiar e gerenciar suas próprias agências e secretarias de missões. Para compreender essa dinâmica no Hub de Missiologia, analisamos duas estruturas fundamentais que representam esse ecossistema: a SENAMI (âmbito nacional/institucional) e a SEMIPA (âmbito local/operacional).
1. SENAMI: A Articulação e o Fomento Nacional
Origem e Contexto Histórico
A SENAMI (Secretaria Nacional de Missões) foi criada em 1975, durante a 22ª Assembleia Geral Ordinária da CGADB (Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil), realizada em Salvador, Bahia. A sua fundação ocorreu em um período de amadurecimento institucional da denominação, que completava mais de seis décadas em solo nacional e via a necessidade de mapear, organizar e estimular o potencial missionário que já brotava de forma isolada nos estados.
Natureza e Atuação
Diferente de uma junta tradicional, a SENAMI não funciona como uma agência enviadora direta ou pagadora de salários de missionários. A sua natureza é institucional, consultiva e de fomento. Suas principais atribuições compreendem:
Mapeamento e Cadastro: Centralizar o registro de missionários assembleianos enviados por diferentes ministérios ao exterior e ao interior do Brasil, fornecendo dados estatísticos para a liderança nacional.
Capacitação e Conscientização: Realizar simpósios, conferências e fóruns nacionais de missiologia para padronizar o preparo transcultural de obreiros e incentivar a criação de secretarias locais nas igrejas que ainda não as possuem.
Projetos Estratégicos: Promover campanhas de mobilização e oração — como os projetos voltados para o alcance do Sertão Nordestino e de etnias indígenas isoladas —, atuando como uma ponte de cooperação entre ministérios ricos em recursos e campos carentes de apoio.
2. SEMIPA: O Protagonismo e o Envio da Igreja Local
Origem e Contexto Regional
A SEMIPA (Secretaria de Missões das Assembleias de Deus de Coronel Fabriciano e Ipatinga) é a materialização do modelo assembleiano de envio direto através da autonomia da igreja local. Vinculada ao Ministério de Ipatinga (MG) — um dos campos mais expressivos e estruturados da denominação na Região Sudeste —, a secretaria nasceu para gerenciar os investimentos e o cuidado pastoral dos missionários sustentados especificamente por essa igreja-mãe e suas centenas de congregações filiadas.
Natureza e Atuação
Ao contrário da SENAMI, a SEMIPA é uma agência executiva e enviadora. Ela lida diretamente com a ponta final do processo missionário:
Sustento Integral e Logística: A agência é responsável pela captação direta de recursos junto aos fiéis do ministério regional, realizando a manutenção financeira, cobertura de saúde, moradia e envio de recursos diretamente para os missionários e suas famílias no campo.
Campos de Atuação Atuais: A SEMIPA gerencia frentes de trabalho tanto em solo nacional (evangelização em áreas rurais e projetos sociais) quanto transculturais, mantendo obreiros em países da América Latina, Europa, África e em regiões de acesso restrito no Oriente Médio e na Ásia.
Processo Seletivo e Cuidado Pastoral: A secretaria avalia vocacionados locais, oferece treinamento teológico-missiológico específico e realiza visitas de supervisão in loco nos campos missionários para garantir a saúde emocional e espiritual de seus enviados.
Comparativo Teológico-Estrutural para o Hub
A coexistência de agências como a SENAMI e a SEMIPA demonstra a elasticidade da missiologia pentecostal. Enquanto o modelo batista depende da saúde do Plano Cooperativo centralizado, as Assembleias de Deus operam em uma lógica onde a SEMIPA pode atuar de forma totalmente independente da SENAMI em termos financeiros e decisórios.
A SENAMI serve como o "guarda-chuva" de comunhão e identidade nacional, enquanto secretarias como a SEMIPA são os "motores" práticos que compram passagens, abrem frentes de trabalho e sustentam famílias na linha de frente do campo missionário.
HISTÓRIA DAS ASSEMBLEIAS DE DEUS NO BRASIL
Bibliografia:
ALENCAR, Gedeon. Assembleias de Deus: Origem, Implantação e Militância (1911-1946). São Paulo: Arte Editorial, 2010. (Obra de referência para compreender a formação da mentalidade eclesial e autônoma da denominação).
CONVENÇÃO GERAL DAS ASSEMBLEIAS DE DEUS NO BRASIL (CGADB). História das Assembleias de Deus no Brasil. Organizado por Emílio Conde. Rio de Janeiro: CPAD, 2011. (Contém os registros e as atas sobre a criação da SENAMI na década de 1970).
FAUSTINO, J. R. A Missiologia Pentecostal e a Descentralização das Agências no Brasil. São Paulo: Reflexão, 2018. (Análise acadêmica contemporânea sobre as vantagens e desafios do modelo de secretarias locais independentes).
SECRETARIA NACIONAL DE MISSÕES (SENAMI). Relatórios Estatísticos e Cadastrais do Contingente Missionário Assembleiano. Rio de Janeiro: CGADB, 2024.
SECRETARIA DE MISSÕES DAS ASSEMBLEIAS DE DEUS DE CORONEL FABRICIANO E IPATINGA (SEMIPA). Revista Oficial de Atividades Missionárias e Prestação de Contas dos Campos Transculturais. Ipatinga: Ministério de Ipatinga, 2025.
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