Doação para o Portal

Apoie com R$ 1,00 via Pix



83 - Edificando nosso próximo como meta de vida.

 


Edificando nosso próximo como meta de vida


Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo.
Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros. 

Filipenses 2:3,4

I. A Anatomia do Conflito: O Ventilador e o Motor

Para compreendermos a meta de edificar o próximo, precisamos primeiro diagnosticar o mecanismo que geralmente governa nossas ações. Em Filipenses 2:3, Paulo adverte: "Nada façais por partidarismo ou vanglória". Aqui, ele descreve o que podemos chamar de "Síndrome do Ventilador".

O ventilador é uma máquina de princípio motor. Para que ele funcione e gere o vento que deseja, ele precisa estar ligado a uma tomada; ele precisa sugar energia da rede externa. O ventilador não produz energia; ele a consome para girar suas próprias pás. No campo das relações, o "indivíduo-motor" é aquele que vê o próximo como uma fonte de alimentação para seu ego, sua segurança ou seu conforto.

  • O Consumo do Outro: Se eu trato as pessoas ao meu redor como "corrente elétrica" para que eu possa brilhar ou realizar meus projetos, eu as estou consumindo.

  • A Vanglória: É o ruído das pás girando para si mesmas. O objetivo não é o frescor do ambiente, mas o exercício do próprio mecanismo.

Quando operamos no princípio motor, nossa "meta de vida" é a manutenção do nosso próprio movimento. O outro é apenas o combustível.

II. A Mística do Moinho: O Princípio Motriz

O oposto do ventilador não é a inércia, mas o moinho de vento. O moinho opera pelo princípio motriz. Ele não exige energia da rede para girar; ele se deixa tocar pela força que vem de fora — o vento (Pneuma).

Diferente do ventilador, que consome para girar, o moinho gira para ser consumido. Suas engrenagens não existem para refrescar a si mesmas, mas para moer o grão e gerar alimento. Esta é a essência de Filipenses 2:4: "Não tenha cada um em vista somente o que é próprio, mas também o que é dos outros".

Ser útil, no sentido bíblico, é assumir o princípio motriz. É entender que minha vida é uma plataforma para que a força de Deus encontre as necessidades do próximo. Enquanto o ventilador para de girar se a rede cair, o moinho permanece disponível enquanto houver vento e grão.


III. "Considerar o Outro Superior": O Ajuste das Engrenagens

A parte mais desafiadora do texto de Paulo é o comando: "considere os outros superiores a si mesmo". No modelo do motor, isso é impossível, pois o motor é o centro do seu próprio universo. Contudo, no modelo do moinho, isso se torna a meta de vida.

Edificar o próximo como meta de vida exige uma mudança de perspectiva sobre quem é o "cliente" da nossa existência. Considerar o outro superior não significa nutrir um complexo de inferioridade, mas reconhecer que a necessidade do outro é o chamado para o meu funcionamento.

Quando eu coloco a edificação do próximo como meta, eu mudo a pergunta:

  • De: "O que eu ganho com essa amizade?"

  • Para: "O que há em mim que pode servir de ferramenta para o crescimento dessa pessoa?"

Este é o processo de ser "consumido". Um moinho que mói muito trigo acaba com suas pedras desgastadas. Uma vida que edita, apoia, ouve e investe no próximo sofrerá desgaste. Mas é um desgaste com propósito. É o "ser gasto" de que falava o apóstolo Paulo em outras cartas.

IV. Cristo: O Exemplo Máximo de Esvaziamento

Não podemos falar de Filipenses 2 sem chegar ao "Hino de Cristo" (v. 5-11). Jesus é o exemplo supremo do princípio motriz. Sendo Deus, Ele não usou Sua divindade como um motor para consumir a adoração dos homens em benefício próprio. Pelo contrário, Ele se esvaziou (kenosis).

Ele se tornou o moinho que foi moído no Calvário. O "Vento" da vontade do Pai o moveu, e o resultado foi o pão da vida para toda a humanidade. Ao imitarmos esse sentimento, transformamos nossa existência de uma busca por "ser servido" (consumir) para uma busca por "servir" (ser consumido).

"A verdadeira grandeza não é medida por quantos servos você tem, mas por quantas pessoas você serve sem esperar que elas alimentem o seu motor."


V. Conclusão: Praticando a Edificação

Tornar a edificação do próximo uma meta de vida significa desaprender a arte de "sugar" e dominar a arte de "moer". Significa que, ao final do dia, nosso sucesso não será medido pelo quanto acumulamos de energia ou atenção, mas por quão alimentadas saíram as pessoas que cruzaram nosso caminho.

Que possamos ser menos ventiladores barulhentos, que apenas circulam o ar quente do próprio ego, e mais moinhos silenciosos e produtivos, que entendem que sua maior glória é serem gastos na produção de vida para o próximo.

Que Deus continue nos abençoando.

Alisson Lourenço - pastor, teólogo, cientista da religião e psicanalista.

BIBLIOGRAFIA:

  • BARCLAY, William. The Letters to the Philippians, Colossians, and Thessalonians. Louisville: Westminster John Knox Press. (Oferece a base linguística para os conceitos de kenosis e a exortação de Paulo à humildade e ao serviço).

  • BROWN, Raymond E. An Introduction to the New Testament. New York: Doubleday. (Fornece o contexto histórico da comunidade em Filipos e a importância do "Hino de Cristo" como modelo de conduta para a igreja).

  • BUBER, Martin. Eu e Tu. São Paulo: Perspectiva. (Sustenta a análise sobre o "indivíduo-motor" que consome o outro, contrastando com a relação autêntica onde o próximo é visto em sua plena dignidade).

  • GRIFFITH-JONES, Robin. The Gospel According to Paul. (Auxilia na compreensão da mística paulina de "ser gasto" em favor do Evangelho e dos irmãos).

  • HENRY, Matthew. Comentário Bíblico Completo. (Base devocional clássica para a interpretação de Filipenses 2:3-4 sobre o dever de considerar o próximo superior a si mesmo).

  • LEWIS, C.S. Os Quatro Amores. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil. (Dialoga com a metáfora do moinho ao discutir o amor-doação, que não busca satisfação própria, mas o bem do amado).

  • PETERSON, Eugene H. A Maldição do Bem: O Pastor que não queria ser um deus. São Paulo: Mundo Cristão. (Apoia a reflexão sobre o perigo do ego religioso e a necessidade do esvaziamento para o exercício do serviço real).

  • SCHRADER, K. The Kenotic Theory: With Particular Reference to its Anglican Forms. (Obra técnica para fundamentar o conceito de kenosis — o esvaziamento de Cristo — citado na quarta seção).


Gostou do nosso conteúdo? acesse muito mais sobre fé, religião, reflexões práticas da vida, justiça social, relevância da vida cristã e muito mais em:

REFLEXÕES DE ALISSON LOURENCO


E se você gostaria de conhecer muito mais do nosso trabalho sobre história e pesquisa de personalidades cristãs e denominações evangélicas, acesse nosso mapa do portal e passeie por nosso conteúdo. Todos são muito bem vindos!!

MAPA DO PORTAL



Total de visualizações de página