Gavin Menzies
e a Teoria dos Verdadeiros Descobridores do Mundo.
Resenha do Livro 1421.
Gavin Menzies (1937–2020) foi uma figura fascinante, embora altamente controversa, no mundo da historiografia. Ex-comandante de submarinos da Marinha Real Britânica, ele se transformou em um autor de best-sellers ao propor uma revisão radical da Era dos Descobrimentos.
Sua obra principal sustenta que a China da Dinastia Ming não apenas explorou o mundo muito antes dos europeus, mas que os grandes navegadores como Colombo, Magalhães e Cabral possuíam mapas baseados em descobertas chinesas anteriores.
Aqui está um resumo detalhado de suas teses, seus argumentos e a recepção de sua obra:
1. A Tese Principal: "1421"
No seu livro mais famoso, "1421: O Ano em que a China Descobriu o Mundo", Menzies afirma que o almirante eunuco Zheng He e seus subordinados (como Zhou Wen e Yang Qing) comandaram frotas gigantescas que:
Circumnavegaram o globo entre 1421 e 1423.
Estabeleceram colônias nas Américas (70 anos antes de Colombo).
Chegaram à Austrália, Nova Zelândia e Antártida.
Mapearam o mundo inteiro, incluindo as passagens do Noroeste e do Nordeste.
A "Prova" de Menzies:
Ele baseou sua teoria em uma mistura de:
Cartografia: Menzies alegava que mapas europeus antigos (como o Planisfério de Cantino e o Mapa de Piri Reis) mostravam terras que os europeus ainda não conheciam, sugerindo que eles "copiaram" mapas chineses.
Evidências Físicas: Relatos de naufrágios de "juncos chineses" em lugares improváveis (como o "navio de mogno" na Austrália) e a presença de pedras de lastro e âncoras de estilo chinês.
DNA e Botânica: Argumentava que a presença de certas plantas asiáticas nas Américas (e vice-versa) e traços genéticos em populações indígenas eram provas do contato Ming.
2. A Expansão da Teoria: "1434"
Em seu livro subsequente, "1434: O Ano em que uma Magnífica Frota Chinesa Chegou à Itália e Iniciou o Renascimento", Menzies elevou a aposta. Ele propôs que:
Uma delegação chinesa chegou a Veneza e Florença em 1434.
Eles trouxeram tratados técnicos sobre astronomia, matemática, engenharia e arquitetura.
Esses conhecimentos teriam sido a faísca para as invenções de Leonardo da Vinci e o início do Renascimento europeu.
3. A Desconstrução dos Heróis Ocidentais
Menzies não nega que Colombo ou Magalhães navegaram, mas ele tenta "desconstruir o mito do descobridor". Para ele:
Colombo: Não estava "descobrindo" o desconhecido, mas seguindo um mapa que já mostrava as ilhas do Caribe.
Magalhães: Já sabia da existência do estreito que leva seu nome porque ele constava em mapas chineses prévios.
Portugal e Espanha: Teriam herdado ou roubado o conhecimento geográfico chinês através de redes de comércio na Índia e no Sudeste Asiático.
4. Por que a Academia Rejeita Menzies?
Apesar do sucesso de vendas e do entusiasmo do público, a comunidade acadêmica de historiadores e arqueólogos classifica a obra de Menzies como pseudohistória. Os principais pontos de crítica são:
Falta de Evidência Arqueológica: Não existe um único fragmento de porcelana Ming ou inscrição chinesa autêntica daquela época nas Américas que suporte uma colonização ou exploração em larga escala.
O Mapa de 1418: Menzies usou um mapa que surgiu na China em 2001 (o "Mapa de Liu Gang") como prova. Especialistas provaram que se trata de uma falsificação do século XVIII, pois contém erros e projeções cartográficas que não existiam em 1418.
Interpretação Seletiva: Ele é acusado de "ajustar" fatos para caber na teoria, ignorando que os registros chineses da época (que são muito detalhados) mencionam as viagens de Zheng He à África e ao Sudeste Asiático, mas nunca às Américas.
5. Legado e Impacto
Mesmo sendo desacreditado pelos historiadores, Menzies teve um papel importante em descentralizar a narrativa eurocêntrica. Ele forçou o público a olhar para a incrível capacidade tecnológica da China Ming — que, de fato, possuía os maiores navios do mundo na época (os Baochuan ou Navios Tesouro).
Sua obra transformou a história em um tema de debate popular, incentivando muitas pessoas a questionarem a versão oficial dos livros didáticos, ainda que suas conclusões específicas sejam consideradas fantasiosas.
6. Por que a Academia Rejeita Menzies: Inércia ou Falta de Provas?
Muitos leitores sentem que a academia é "fechada" ou "protecionista". No entanto, a rejeição a Menzies não ocorre apenas por uma vontade de manter o status quo, mas sim por falhas fundamentais no seu método de prova.
Evidências vs. Convicção: Para a História acadêmica, não basta que algo seja possível; é preciso que seja provável através de provas documentais ou arqueológicas. Menzies usa muitas "suposições": "Se os chineses tinham navios grandes, eles devem ter chegado à América". A academia exige encontrar porcelana Ming ou inscrições autênticas da época em solo americano, o que nunca ocorreu.
O Problema dos Mapas: Menzies baseou muito de seu argumento no "Mapa de 1418". Especialistas em cartografia e análises químicas indicaram que o mapa é uma falsificação posterior (provavelmente do século XVIII), contendo termos e conceitos geográficos que nem os chineses nem os europeus tinham em 1418.
Consequências da Aceitação: Se as teses de Menzies fossem provadas, os historiadores adorariam — seria a maior descoberta da profissão! O problema é que, ao "forçar" evidências, ele acaba criando uma pseudohistória, o que prejudica a verdadeira pesquisa sobre a incrível capacidade naval da Dinastia Ming.
7. A Igreja Católica e a "Distribuição" do Mundo
Sua segunda pergunta toca no tema principal do livro de Menzies, "1434". Ele propõe uma teoria de conspiração intelectual onde o conhecimento chinês foi o combustível silencioso das navegações europeias.
O Papel de Marco Polo e Niccolò de' Conti
Segundo Menzies, a informação não veio de uma única vez. Ele sugere uma "escada" de transmissão:
Marco Polo: No século XIII, ele teria trazido relatos e esboços da geografia asiática.
Niccolò de' Conti: Um mercador veneziano que viajou pela Ásia na época de Zheng He. Menzies afirma que Conti obteve mapas chineses e os trouxe para a Itália.
A Delegação de 1434: Menzies sustenta que uma frota chinesa chegou a Florença em 1434 e entregou ao Papa Eugênio IV tratados de astronomia, matemática e mapas mundiais completos.
O Papa como "Dono" do Mapa Mundi
Na teoria de Menzies, a Igreja Católica tornou-se a guardiã desses mapas secretos. Isso explicaria:
O Tratado de Tordesilhas (1494): O fato de o Papa ter traçado uma linha dividindo o mundo com tanta precisão (antes mesmo de se conhecer a extensão do Brasil ou o Oceano Pacífico) sugere, para Menzies, que a Igreja já sabia o que havia lá através dos mapas chineses.
A Escolha dos Descobridores: A Igreja teria "terceirizado" a exploração para as potências católicas (Espanha e Portugal). Menzies sugere que Colombo e Magalhães não estavam navegando no escuro, mas carregando cópias desses mapas — o que explicaria por que Colombo estava tão confiante de que encontraria terra.
O fator "Dinheiro e Poder"
Embora Menzies não use o termo "venda de mapas" no sentido literal de uma loja, ele sugere que o acesso a esse conhecimento era um privilégio político. A Espanha e Portugal, como "braços armados" da expansão da fé, receberam as coordenadas. A Inglaterra, que mais tarde romperia com a Igreja, teria ficado com as "sobras" ou obtido mapas por espionagem e capturas de navios.
8. A Aparência e o "Traço Amarelo"
A semelhança física entre povos ameríndios (como os quechuas do Peru ou os guaranis) e os povos da Ásia Oriental é inegável. Traços como o cabelo liso e preto, a mancha mongólica (em bebês) e a prega epicântica (os olhos puxados) são características compartilhadas.
A Explicação Científica: A ciência concorda com a origem asiática, mas discorda da data. A genética prova que os ancestrais dos indígenas americanos cruzaram o Estreito de Bering há pelo menos 15.000 a 30.000 anos.
O Conflito com Menzies: Menzies argumenta que houve um contato "fresco" em 1421 que reforçou esses traços. Contudo, estudos de DNA mitocondrial mostram que os haplogrupos indígenas (A, B, C e D) se separaram dos asiáticos há milênios, e não há 600 anos. Se os chineses tivessem chegado em 1421 e deixado descendentes em massa, encontraríamos marcadores genéticos chineses da Dinastia Ming muito específicos, o que ainda não foi detectado em larga escala.
9. Espécies Animais: O Caso das "Garças" e Galinhas
Menzies dedica capítulos inteiros a animais e plantas que ele acredita terem sido transportados pelos chineses.
As "Garças" e Corvos Marinhos: Menzies cita que os chineses usavam corvos marinhos (cormorões) treinados para pescar. Ele afirma ter encontrado evidências de que essas técnicas e aves foram levadas para as Américas.
A Galinha Araucana: Esta é uma das provas favoritas de Menzies. No Chile, existe uma galinha que bota ovos azuis. Ele sustenta que ela é descendente de galinhas asiáticas trazidas pela frota de Zheng He.
Contraponto: Estudos genéticos recentes sugerem que galinhas podem ter chegado à América do Sul via Polinésia antes de Colombo, mas a ligação direta com a China de 1421 ainda é debatida e considerada inconclusiva por muitos biólogos.
Botânica: Ele também menciona o inhame, a batata-doce e o coco, sugerindo que a distribuição dessas plantas pelo Pacífico só seria possível com navegadores experientes como os chineses.
10. O "X" da Questão: Por que isso convence tanto?
A teoria de Menzies é sedutora porque ela preenche lacunas que a história oficial às vezes ignora, como o fato de que os povos pré-colombianos eram extremamente avançados. Dizer que eles tiveram "ajuda" ou "contato" com uma potência como a China Ming parece fazer sentido diante das incríveis construções em Machu Picchu ou das semelhanças culturais.
O que a academia defende, por outro lado, é que os povos ameríndios desenvolveram tudo isso sozinhos, sendo descendentes de asiáticos que chegaram no fim da Era do Gelo, e não "visitantes" recentes.
BIBLIOGRAFIA:
1. Obras Objeto do Estudo (Fontes Primárias)
MENZIES, Gavin. 1421: O ano em que a China descobriu o mundo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. (A obra central onde o autor expõe a tese da circunavegação chinesa e a descoberta das Américas).
MENZIES, Gavin. 1434: O ano em que uma magnífica frota chinesa chegou à Itália e iniciou o Renascimento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. (Livro onde o autor defende a tese da transmissão de mapas e tecnologias para o Papa e para Da Vinci).
2. Contexto Histórico e Naval (Igreja e Expansão)
DREYER, Edward L. Zheng He: China and the Oceans in the Early Ming Dynasty, 1405-1433. New York: Pearson Longman. (Considerada a biografia acadêmica definitiva do almirante, oferecendo o contraponto factual às teses de Menzies).
LEVATHEZ, Louise. When China Ruled the Seas: The Treasure Fleet of the Dragon Throne, 1405-1433. Oxford University Press. (Descreve a magnitude tecnológica dos juncos chineses e a realidade das expedições de Zheng He).
PARRY, J. H. A Época dos Descobrimentos. Rio de Janeiro: Zahar. (Fundamenta o papel da Igreja Católica e das potências ibéricas na cartografia e expansão mundial).
SOUZA, Rainer Sousa. O Tratado de Tordesilhas e a Ordem Mundial. (Apoia a discussão sobre a partilha do mundo entre Portugal e Espanha sob a tutela papal).
3. Crítica Científica e Desconstrução (Historiografia e Genética)
FINLAY, Robert. "How Not to Write the History of the World: Gavin Menzies and the Chinese Discovery of America". Journal of World History. (O mais famoso artigo acadêmico que desmascara os erros metodológicos e as falsificações cartográficas de Menzies).
REICHERT, Renato. "O Mapa de 1418 e a Cartografia Chinesa". (Analisa a fraude do mapa de Liu Gang citado no artigo).
MANN, Charles C. 1491: Novas Revelações das Américas antes de Colombo. Rio de Janeiro: Objetiva. (Oferece a explicação científica e genética sobre a origem dos povos ameríndios e a travessia do Estreito de Bering).
SYKES, Bryan. As Sete Filhas de Eva. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. (Base genética para discutir o DNA mitocondrial e os haplogrupos que ligam a Ásia às Américas há milênios, invalidando a data de 1421 como origem do traço asiático).
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