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40 - Jacob Armínio (1560-1609)


Jacó Armínio: O Teólogo da Graça Resistível e da Liberdade em Cristo

Formação e o Despertar de uma Nova Perspectiva

Jacó Armínio (1560–1609) nasceu em Oudewater, na Holanda, em um período de intensas transformações políticas e religiosas. Órfão desde cedo, foi sustentado por amigos e mentores que reconheceram sua inteligência brilhante, o que o levou a estudar nas melhores universidades da Europa, incluindo Leiden e Genebra. Em Genebra, ele foi aluno de Teodoro Beza, o sucessor de Calvino e um dos maiores defensores da predestinação rígida.

Ao retornar à Holanda e assumir o pastorado em Amsterdã, Armínio foi inicialmente encarregado de defender o sistema calvinista contra críticas crescentes. No entanto, ao mergulhar profundamente nas Escrituras — especialmente na Epístola aos Romanos — e nos escritos dos pais da Igreja primitiva, ele começou a questionar as interpretações de Beza. Para Armínio, a doutrina da predestinação incondicional corria o risco de transformar Deus no autor do pecado e anular a responsabilidade humana.


O Conflito em Leiden

Em 1603, Armínio foi nomeado professor de teologia na Universidade de Leiden. Sua presença lá gerou um embate histórico com seu colega Franciscus Gomarus, um defensor estrito da soberania divina absoluta. Armínio não negava a soberania de Deus, mas argumentava que a graça divina era a causa de toda a salvação, embora pudesse ser resistida pela vontade humana.

Ele defendia que a eleição divina era baseada na presciência de Deus — ou seja, Deus escolhe para a salvação aqueles que, pelo auxílio da graça preveniente, crêem em Cristo. Essa visão buscava equilibrar a total dependência do homem em relação a Deus com a necessidade de uma resposta de fé livre e genuína.

O Legado dos Remonstrantes

Jacó Armínio faleceu prematuramente em 1609, em meio a uma exaustiva controvérsia que dividia a nação holandesa. Após sua morte, seus seguidores redigiram a "Remonstrância" (1610), um documento que resumia suas convicções em cinco pontos fundamentais:

  1. Eleição Condicional: Baseada na fé prevista.

  2. Expiação Universal: Cristo morreu por todos, embora apenas os que crêem recebam o benefício.

  3. Depravação Total: O homem não pode fazer nada de bom por si mesmo sem a graça.

  4. Graça Preveniente e Resistível: Deus toma a iniciativa, mas o homem pode rejeitar o convite.

  5. Perseverança dos Santos: Uma questão que os arminianos originais deixaram em aberto para debate bíblico contínuo.

Embora o Sínodo de Dort (1618-1619) tenha condenado o arminianismo, as ideias de Armínio sobreviveram e floresceram, tornando-se a base teológica do metodismo de John Wesley e de grande parte do evangelicalismo moderno.


Bibliografia: O Pensamento Arminiano e sua História

Para quem deseja aprofundar-se no estudo de Jacó Armínio e na tradição que ele fundou, aqui estão as obras fundamentais:

  • ARMINIO, Jacó. As Obras de Armínio. (3 Volumes). Rio de Janeiro: CPAD, 2015. (A fonte primária indispensável para entender seu pensamento original).

  • BANGS, Carl. Arminius: A Study in the Dutch Reformation. Nashville: Abingdon Press, 1971. (Considerada a biografia acadêmica definitiva sobre Armínio).

  • BOYER, Orlando S. Heróis da Fé. Rio de Janeiro: CPAD, 2018.

  • FERREIRA, Franklin. A Igreja Cristã na História: Das origens aos dias atuais. São Paulo: Vida Nova, 2013.

  • GONZÁLEZ, Justo L. Uma História do Pensamento Cristão. (Volume 3). São Paulo: Cultura Cristã, 2004.

  • MCGONIGLE, Thomas. Sufficient Grace: Explaining the Arminian Perspective. Kansas City: Beacon Hill, 2001.

  • OLSON, Roger E. Teologia Arminiana: Mitos e Realidades. São Paulo: Editora Reflexão, 2013. (Excelente para desfazer mal-entendidos comuns sobre o arminianismo).

  • OLSON, Roger E. História da Teologia Cristã. São Paulo: Editora Vida, 2001.

  • PICIRILLI, Robert E. Graça, Fé e Livre-Arbítrio. Rio de Janeiro: CPAD, 1999.

  • STANGREELIN, Keith D. Jacob Arminius: Theologian of Grace. Oxford: Oxford University Press, 2009.








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TEXTO ORIGINAL DE 2015 

Um teólogo holandês. Arminius nasceu em Oudewater (18 m. em direção ao leste e nordeste de Roterdã) em 10 de outubro de 1560 e morreu em Leiden em 19 de outubro de 1609. Após a morte prematura de seu pai ele foi morar com Rudolphus Snellius, professor em Marburg. Em 1576 retornou para casa e estudou teologia em Leiden sob Lambertus Danæus. Aqui ele passou seis anos, até que recebeu autorização dos burgomestres de Amsterdã para continuar seus estudos em Genebra e Basel sob Beza e Grynæus. Ele fez preleções sobre a filosofia de Petrus Ramus e a Epístola aos Romanos. Sendo chamado de volta pelo governo de Amsterdã, em 1588 ele foi nomeado pregador da congregação reformada. Durante os quinze anos que passou aqui, ele obteve o respeito de todos, mas suas concepções sofreram uma mudança. Sua exposição de Rm 7 e 9 e seu pronunciamento sobre a eleição e reprovação foram considerados ofensas. Seu colega, erudito mas irascível, Petrus Plancius se opôs a ele em particular. Disputas surgiram no consistório, que temporariamente foram impedidas pelos burgomestres.

Arminius foi suspeito de heresia porque considerava o consentimento com os livros simbólicos como não unificadores e estava pronto a conceder ao Estado mais poder nas questões eclesiásticas do que os rígidos calvinistas gostariam de admitir. Quando dois dos professores da Universidade de Leiden, Junius e Trelcatius, morreram (1602), os administradores chamaram Arminius; e Franciscus Gomarus, o único professor de teologia vivo, protestou, mas ficou satisfeito após uma entrevista com Arminius. O último assumiu suas obrigações em 1603 com um discurso sobre o ofício sumo sacerdotal de Cristo, e se tornou doutor em teologia. Mas as disputas dogmáticas foram renovadas quando Arminius realizou palestras públicas sobre a predestinação. Gomarus se opôs a ele e publicou outras teses. Sucedeu uma grande agitação na universidade e os estudantes foram divididos em dois partidos. Os ministros de Leiden e de outros locais participaram da controvérsia, que se tornou geral. Os calvinistas queriam que a questão fosse decidida por um sínodo geral, mas os Estados Gerais não queriam fazê-lo. Oldenbarneveldt, o estadista liberal holandês, deu em 1608 a ambos os oponentes oportunidade para defender suas opiniões diante da suprema corte, e o veredicto pronunciado foi que, visto que a controvérsia não tinha qualquer relação com os pontos principais relativos à salvação, cada um deveria ser indulgente com o outro. Mas Gomarus não se renderia. Até os Estados da Holanda tentaram realizar uma reconciliação entre os dois, e em agosto de 1609, ambos os professores e quatro ministros foram convidados para fazer novas negociações. As deliberações foram primeiro mantidas oralmente, sendo depois continuada por escrito, mas foram encerradas em outubro com a morte de Arminius.

Em suas Disputationes, que foram parcialmente publicadas durante sua vida, parcialmente após sua morte, e que incluíam toda a seção de teologia, assim como em alguns discursos e outros escritos, Arminius clara e diretamente definiu sua posição e expressou sua convicção. No geral estes escritos são um belo testemunho de sua erudição e sagacidade. A doutrina da predestinação pertencia aos ensinos fundamentais da Igreja Reformada; mas a concepção dela afirmada por Calvino e seus partidários, Arminius não poderia adotar como sua. Ele não queria seguir um desenvolvimento doutrinário que tornava Deus o autor do pecado e da condenação dos homens. Ele ensinava a predestinação condicional e atribuiu mais importância à fé. Ele não negava nem a onipotência de Deus nem sua livre graça, mas ele considerava que era seu dever preservar a honra de Deus, e enfatizar, baseado nas claras expressões da Bíblia, o livre-arbítrio do homem bem como a verdade da doutrina do pecado. Nestas coisas ele estava mais do lado de Lutero do que de Calvino e Beza, mas não pode ser negado que ele expressou outras opiniões que foram vigorosamente contestadas como sendo afastamentos da confissão e do catecismo. Seus seguidores expressaram suas convicções nos famosos cinco artigos que eles apresentaram diante dos Estados como sua justificação. Chamados de remonstrantes, por causa destas Remonstrantiæ, eles sempre se recusaram a ser chamados de arminianos.

Tradução: H. C. Rogge, em The New Schaff-Herzog Encyclopedia Of Religious Knowledge, Vol I, Editado por Samuel Macauley Jackson

A posição de Jacob Armínio (1560-1609) e seus seguidores – frequentemente conhecidos como remonstrantes – quanto à graça, o livre-arbítrio, à predestinação e à perseverança dos crentes. Armínio era um teólogo calvinista holandês que, em todos aqueles pontos nos quais a tradição reformada diferia da católica ou da luterana, continuou sendo calvinista. É importante recordar isso, visto que frequentemente se diz que o arminianismo é o contrário do calvinisrno, quando na realidade tanto Arrnínio como seus seguidores eram calvinistas em todos os pontos, exceto nos que debatiam. Além disso, é necessário notar que o debate envolvia também o interesse de um dos grupos em sublinhar o calvinismo estrito a fim de salvaguardar a independência recentemente conquistada do país, enquanto que o outro buscava posições que tornassem mais fácil para o país comercializar com outros que não fossem estritamente calvinistas. Em parte, por essa razão, os calvinistas estritos fundamentavam seus argumentos sobre as Escrituras, e o princípio da justificação só pela graça, construindo sobre isso um sistema rigidamente lógico e racional, enquanto seus opositores desenvolveram argumentos igualmente coerentes fundamentados sobre os princípios geralmente aceitos da religião – razão pela qual em certo modo foram precursores do racionalismo.

Armínio envolveu-se em um debate quando resolveu refutar as opiniões daqueles que rejeitavam a doutrina calvinista estrita da predestinação. Mas então se convenceu de que eram eles que tinham razão, e se tornou o principal defensor dessa posição. Os calvinistas estritos que se opuseram a ele e que mais tarde condenaram seus ensinamentos eram supralapsarianos. Sustentavam que Deus havia decretado antes de tudo a eleição de alguns e a reprovação de outros, e depois havia decretado a queda e suas consequências, de tal modo que o decreto inicial da eleição e reprovação pudesse ser cumprido. Também sustentavam que as consequências da queda são tais que toda a natureza humana está totalmente depravada, e que o decreto da predestinação é tal que Cristo morreu unicamente pelos eleitos, e não por toda a humanidade. Em princípio, Armínio tratou de responder a essas opiniões adotando uma posição infralapsariana; mas logo se convenceu de que isso não bastava. Criticou então seus adversários argumentando, em primeiro lugar, que sua discussão dos decretos da predestinação não era suficientemente cristocêntrica, visto que o verdadeiro grande decreto da predestinação é aquele “pelo qual Cristo foi destacado por Deus para ser o salvador, a cabeça e o fundamento daqueles que herdarão a salvação”; e, em segundo lugar, que a predestinação dos fiéis por parte de Deus baseia-se em sua presciência de sua fé futura.

Visto que a doutrina da predestinação de seus opositores se fundamenta na primazia da graça, e de uma graça irresistivel, Armínio respondeu propondo uma graça “preveniente” ou “preventiva”, que Deus dá a todos, e que os capacita para aceitar a graça salvadora se assim decidirem. E, visto que a graça não é irresistivel, isso implica que é possível um crente, mesmo depois de haver recebido a graça salvadora, cair dela. Foi contra todas essas propostas dos arminianos que o Sínodo de Dordrecht, ou de Dort (1618-19) afirmou os cinco pontos principais do calvinismo estrito, a depravação total da humanidade, a eleição incondicional, a expiação limitada por parte de Cristo, a graça irresistivel, e perseverança dos fiéis.
As teorias de Armínio foram adotadas por vários teólogos de tradição reformada que não estavam dispostos a levar seu calvinismo às consequências que Dordrecht as havia levado. O mais destacado entre eles foi João Wesley (1703-91). Entre os batistas ingleses, aqueles que aceitaram o arminianismo receberam o nome de “batistas gerais”, porque insistiam que Cristo morreu por todos, enquanto que aqueles que ensinavam a expiação limitada foram chamados “batistas particulares”.

Fonte: Breve Dicionário de Teologia, p. 46, 47.

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