Capítulo 2 – A Origem do Sofrimento.
Queridos e amados leitores, quem se dirige a vocês nesse espaço gentilmente cedido pelo meu amigo J. C. Marques sou eu, Alisson Lourenço amante estudioso das ciências sacrossantas, que nesse capítulo me foi solicitado que lhes falasse sobre a origem do sofrimento. Grande e honrosa é a oportunidade do ensino, digo ensino pois para mim essa é uma grande oportunidade de ensinar, como ensinador cristão e mestre por ministério outorgado pelo Mestre Maior que é Jesus, não tenho outro objetivo a não ser esclarecer o máximo possível o leitor, sobre esse assunto tão controverso e tão confundido nos dias de hoje.
Primeiro gostaria de me apresentar caso isso não seja possível posteriormente. Sou Teólogo por vocação e mestre (ensinador) por ministério conforme um dos chamados descritos em Efésios 4. 11. Sou casado com a Tatiana e sou pai da linda Ana Clara. Membro da Assembléia de Deus da Ilha do Governador no Rio de Janeiro, já me vi trabalhando em muitas áreas na igreja, mas em nenhuma outra me trouxe mais
satisfação do que trabalhar em missões. Inclusive, o chamado missionário é fonte das maiores experiências de sofrimento possíveis na carreira de um discípulo de Jesus, ou simplesmente daquele que decidiu correr a carreira cristã. Acredito que vamos entender nesta obra, como algo que traga tanta satisfação como trabalhar no Reino e para o Reino, possa trazer tanto sofrimento e como tantos sentiram tanto prazer em sofrer pela causa do Mestre; e por que essas palavras tão paradoxais conseguem ser tão
intrinsecamente unidas. Vamos começar do início. Dos dicionários Aurélio e Michaelis, tiramos os seguintes significados de sofrimento: Ato, ação ou efeito de sofrer, dor física, pena moral, paciência, padecimento, amargura, tolerância e desastre. Vamos às explicações respectivamente: Como sinônimo de dor física é fácil entender o sofrimento – não precisaremos nos ater aqui. Quando se sabe o que não se deve fazer mas mesmo assim o faz e se sofre a dor do arrependimento seria um entendimento interessante para a pena moral a culpa que vem de dentro, para aquele que está em Cristo, sendo levado pelo Espírito Santo de Deus. Para os mais jovens, impetuosos e impulsivos, esperar o momento certo é facilmente entendido como um sofrimento interminável. É sofrer no esperar, no padecer, é pelo que temos que passar para conquistar o fruto do Espírito Santo na paciência e na longanimidade. Um exemplo bíblico de sofrimento por amargura é o possível sentimento de Judas Iscariotes ao se arrepender de ter traído Jesus e não ter sido alcançado porém pela graça salvadora, que fez com que ele tirasse a própria vida. Sofrer por ser tolerante é entender o que se é preciso fazer da maneira certa no trato com certas pessoas que no nosso entender, não mereceriam misericórdia, assim como Jonas (o profeta) que sofreu por não desejar a salvação dos ninivitas e depois foi ensinado por Deus a ser tolerante em amor. E por fim os desastres que causam tanto sofrimento àqueles que passam por eles.
Dizia o escritor francês Léon Bloy que "sofrer passa, mas ter sofrido não passa jamais". Diante das tragédias que o teatro do mundo oferece, ou dos dramas que ocorrem na minha vida, na sua, na vida das pessoas mais próximas, sofrer passa... mas nunca nos libertamos totalmente do sofrimento.1
Supõe-se que existia no latim vulgar a expressão sufferere, que derivou do latim clássico sufferre, formado de sub- ("sob", "embaixo") e ferre ("levar", "conduzir"). O sofredor sente a dor sobre si. A ideia de estar sob a cruz, levando-a, é imagem recorrente: cada um tem de carregar sua própria cruz. Estar submetido ao sofrimento é sentir-se por baixo, empurrado para o chão. Ter sofrido é não esquecer a tristeza e a dor, mesmo quando já se diluíram no passado. Porque ainda carregamos a lembrança da
dor.1
Com essas definições podemos entender a partir daqui vários significados do sofrimento e depois de termos explorado bem o significado natural do sofrimento vamos agora abordar sua origem e seus significados espirituais. Muitos escritores que já abordaram o tema e mencionaram que o sofrimento tem origem no pecado do homem e também tem origem no amor de Deus. Mas como pode ser isso? Acredito que para o leitor seja mais simples entender a primeira vertente do pensamento da origem, mas a segunda parece um tanto paradoxal. Vamos nos utilizar de alguns textos bíblicos para fundamentar nosso pensamento e fazê-lo compreender como isso funciona:
“E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tuaconceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para oteu marido, e ele te dominará. E a Adão disse: Porquanto desteouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que teordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por causa deti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida.”2
Pela grande responsabilidade que tinha Adão e Eva tanto pelo domínio da Terra quanto pela manutenção da paz e da ordem, a consequência do pecado foi que tanto eles e sua descendência e mais além; tudo que estava subordinado a eles foi passível da pena (“maldita é a terra por causa de ti”). Cada um recebeu conforme sua parcela de culpa, a paga pela desobediência. E por fim todos ficaram a partir daí subordinados ao maior de todos os sofrimentos – A morte.
“E adoraram-na todos os que habitam sobre a terra, esses cujosnomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foimorto desde a fundação do mundo.”3 (grifo meu)
O sofrimento que traz esperança, o sofrimento que significou o maior ato de amor demonstrado na história da humanidade. O texto sagrado nos revela que antes que tudo existisse, antes do pecado que trouxe sofrimento a nós, Deus demonstrou misericórdia ao ser humano se destituindo de Glória (Fp. 2. 5-8) 4 e se tornando um de nós para que como nós, padecesse das mesmas necessidades e sofrimentos, e como homem, suportasse tanta dor e passasse pelo sofrimento maior que é a morte, que foi vencida por Ele. Esse é o significado do sofrimento como paixão, que sofre por amor, que tudo espera, que tudo suporta (I Co. 13)5. Que se originou desde o princípio, antes do princípio. É o sofrer que traz prazer, é o sentimento daquele que alcança um nível de intimidade com Deus que o faz ter prazer nas aflições, pois o faz vislumbrar algo maior. A experiência da esperança da Glória de Deus que no fim, nos fará vencer o último estágio do sofrimento – A morte. É o que motivou os primeiros cristãos a morrer pela causa do Evangelho de Cristo e ainda hoje, cristãos morrem (com prazer) por Jesus pois não há sofrimento suficiente que pode ser comparado ao amor que nos foi dado em sofrimento.6 Como já foi dito no princípio, muitos escritores já abordaram esse interessante tema. Aqui eu quero somente ilustrar com seus importantes pareceres, como abordaram e interpretaram à luz das escrituras o significado e a origem do sofrimento, como já fizemos anteriormente. Lutero buscando consolo para a morte em seu compêndio “Consolo no Sofrimento”, revela que essa “passagem para a outra vida”, ápice do sofrimento humano, é sofrimento a partir do momento em que se vive na expectativa da morte que virá a qualquer momento onde não se sabe a hora mas se tem a certeza que virá. Ensina também em contra partida que o relacionamento com Deus em Jesus é a resposta para conviver com essa espera de forma que não nos preocupemos com a morte que virá mas com a vida eterna que prometida está. Certa feita Jesus ao perder um amigo ensina aos homens uma importante verdade descrita no Evangelho de João capítulo 11 verso 25. Se você tem a oportunidade, abra a bíblia agora e leia essa passagem. Deus falará com você. C. S. Lewis em seu livro “O problema do sofrimento” faz um paralelo entre a bondade de Deus, a maldade humana e o seu sofrimento, oriundo das duas primeiras, porque também para Lewis o sofrimento surge de duas formas: como consequência do pecado, da maldade humana que leva o individuo à morte seja essa física ou espiritual que desagrada o passível do sofrimento, e o sofrimento que pode ou não ser desejado pelo indivíduo, ou seja, mesmo sendo um processo doloroso, o fator psicossomático recebe cargas gradativas de prazer, portanto é o sofrimento oriundo da paixão, é a dor desejada.
“Amor é fogo que arde sem se ver;É ferida que dói, e não se sente;É um contentamento descontente;É dor que desatina sem doer.” 7
Como é bom sofrer de amor não é mesmo? Me lembro dos meus amores da adolescência e posso comprovar essa verdade. A paixão é dolorida, o amor platônico, a expectativa de que o outro saiba o quanto é amado, a melancolia de saber que o amor não pode ser correspondido etc.. São tantos os conflitos dessa fase conturbada da vida, e ainda há quem viva essas agruras mesmo bem depois de ter passado por essa fase. Realmente não resisti tomar como exemplo a forma humana da paixão. Esse sentimento é humano mas também é divino. Por paixão se sofre por outro, se sofre por Jesus por que Ele nos amou primeiro e sofreu por nós. Pense nisso, a paixão não efêmera, é a expressão máxima do amor de Deus por mim e por você. Por fim nesses nossos exemplos literários, um significado bastante interessante para sofrimento, principalmente como sinônimo de dor que eu descobri enquanto pesquisava sobre o assunto, é que o sofrimento pode ser bom afinal, pois ele serve como alerta de um grande perigo, e pode nos tornar mais prudentes, assim como a existência do medo em nossas vidas. Phillip Yancey em seu livro “Deus sabe que sofremos” dentre várias experiências diversas ele aborda a interessante experiência de visita a um leprosário e revela:
“Se alguém visitar um leprosário, provavelmente jamais voltaráa fazer perguntas sobre o importante papel da dor. Sem ela, avida é uma sequencia miserável de receios e perigos. Levandoem consideração fatos fisiológicos, a maioria admitirá querealmente um pouco de dor é coisa útil e até boa.”8
Não sei se você sabe querido leitor, apesar de que após o advento da internet a informação se difunde incrivelmente hoje em dia, mas a lepra ou hanseníase é uma doença que acomete a pele em seus vários níveis, inclusive nas terminações nervosas que lá se encontram, trazendo insensibilidade tátil ao portador dessa enfermidade. O que Yancey quer dizer com essa ilustração é que a presença de dor, é importante pois a sensibilidade nos faz alerta aos perigos. Por exemplo, uma pessoa com hanseníase pode se queimar seriamente sem perceber, encostando numa panela fervendo, enquanto que uma pessoa normal ao passar pela mesma situação, pula, grita e SE AFASTA. Portanto lembre-se: A DOR PODE SALVAR. Serão apresentados adiante nessa obra por nosso querido J.C. Marques, exemplos bíblicos interessantes como o caso de Jó, em que o Eterno permite o seu sofrimento para estreitar relacionamento com ele, e o maravilhoso exemplo de José que no sofrimento soube ser fiel a Deus e entendeu que aquilo que o afligira durante boa parte de sua vida era a oportunidade de Deus para salvação de sua família.9
Em resumo, podemos dizer que a origem do sofrimento à raça humana se deu no Éden quando Adão e Eva desobedeceram a Deus e toda a criação começou a sofrer a partir desse evento. Outra origem do sofrimento é o padecer do Cordeiro de Deus antes da fundação do mundo, esse sofrer nos traz paz, nos traz descanso, removerá para sempre o nosso sofrimento e de todo aquele que nEle crer. O sofrimento de Jesus antes da fundação do mundo supera e termina com o nosso sofrimento que começou no Eden.
Reflita nisso, existe um sofrimento maior que o seu, ele traz fim ao seu sofrimento, debaixo desse sofrimento de Jesus toda dor é suportável. Receba a paz que esse castigo nos traz. Amém
E é assim que se encerra a minha participação na certeza que de alguma forma pude abençoá-lo bem como todo o restante desta edificante obra. Aproveite a leitura, seja abençoado e até a próxima obra. Alisson Lourenco.
REFERÊNCIAS
1 PERISSÉ, Gabriel – Palavras e origens (2a edição, ampliada e atualizada), Ed Saraiva, 2010.
2 Gen. 3. 16-17 (ACRF) / 3 Ap. 13. 8. (ACRF)
4 Fp. – Carta de Paulo aos Filipenses
5 I Co – 1a Carta de Paulo aos Coríntios
6 Romanos 8.18
7 CAMÕES, L. Rimas. Coimbra: Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1953.
8 YANCEY, Phillip – Deus sabe que sofremos. Ed. Vida, 2000.
9 Gênesis 45. 5-7
