Deixou a Judéia, e foi outra vez para a Galiléia.
E era-lhe necessário passar por Samaria.
Foi, pois, a uma cidade de Samaria, chamada Sicar, junto da
herdade que Jacó tinha dado a seu filho José.
E estava ali a fonte de Jacó. Jesus, pois, cansado do
caminho, assentou-se assim junto da fonte. Era isto quase à hora sexta.
Veio uma mulher de Samaria tirar água.
João 4:3-7
O princípio da palavra do Senhor por meio de
Oséias. Disse, pois, o Senhor a Oséias: Vai, toma uma mulher de prostituições,
e filhos de prostituição; porque a terra certamente se prostitui, desviando-se
do Senhor.
Oséias 1:2
Ora, o SENHOR disse a Abrão: Sai-te da tua terra,
da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei.
E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei e
engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção.
E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te
amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra.
Gênesis 12:1-3
Certo dia
estudando o texto de João 4, me deparei com um detalhe que nunca tinha reparado
e também nunca tinha ouvido falar a respeito. Eu já sabia que as traduções dos
originais hebraico e grego respectivamente do antigo e novo testamento para o
português tinham perdido muita coisa, dentre outros motivos relacionados às
diferenças gramaticais e de semântica dos idiomas originais para o nosso, mas
também por que aos tradutores dos idiomas modernos, não interessou revelar
certas nuances culturais dos idiomas bíblicos, visto que muita coisa se perdeu
quando da tradução, e se valorizou uma interpretação espiritualizada dos
textos. É o que mais ou menos acontece nesse episódio onde Jesus se encontra
com uma mulher samaritana em um conhecido poço da cidade de Siquem ou Sicar.
Siquém era
terra dos termos de Manassés, filho de José, filho de Jacó ou Israel por parte
de Raquel. Siquém era também o lugar onde os ossos de José foram enterrados
quando findas as peregrinações do povo após as guerras de reconquista de Canaã.
Era, portanto, um lugar muito emblemático.
No texto fala
que esse encontro ocorrera na hora sexta, que transportando para o nosso
sistema ocidental de verificação de hora, é meio dia – A hora do calor do Sol –
Segundo a cultura judaica, pegar água no poço era papel das mulheres.
Lembro-me da
ocasião em que Eliezer servo de Abraão foi buscar uma esposa para seu filho nas
terras de seu irmão Naor e seu servo se pôs a esperar por uma moça de família
no fim da tarde (hora 11 ou 12).
Logo, o
horário que Jesus se pôs a “esperar” uma mulher era o horário digamos para as
mulheres que não assim tão direitas. Digo que se pôs a esperar pois não era
comum um homem ir ao poço, e se ia ao poço só poderia ser para esperar uma
mulher. O que realmente aconteceu.
Na sequência
do texto, vemos algo bastante interessante pois a mulher que apareceu ali fica
impressionada ao ver um homem ali naquele local aquela hora, ainda mais sendo
visualmente um judeu.
Mulher,
provavelmente não era de família (usando texto mais prático – de vida fácil) e
samaritana. Estigma triplo em relação à cultura judaica patriarcal da época.
A conversa que
discorre depois entre os dois chama atenção pela peculiaridade, pois pelas
nossas traduções mais usadas não aparenta nem de longe a estratégia usada por
Jesus para a abordagem àquela mulher.
Disse-lhe Jesus: Dá-me de beber.
Disse-lhe, pois, a mulher samaritana: Como, sendo tu judeu,
me pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana?
Jesus respondeu, e disse-lhe: Se tu conheceras o dom de Deus,
e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água
viva.
Disse-lhe a mulher: Senhor, tu não tens com que a tirar, e o
poço é fundo; onde, pois, tens a água viva?
És tu maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu o poço,
bebendo ele próprio dele, e os seus filhos, e o seu gado?
Jesus respondeu, e disse-lhe: Qualquer que beber desta água
tornará a ter sede; Mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca
terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que
salte para a vida eterna.
Disse-lhe a mulher: Senhor, dá-me dessa água, para que não
mais tenha sede, e não venha aqui tirá-la.
Disse-lhe Jesus: Vai, chama o teu marido, e vem cá.
João 4:7-16
Conversa de
doido né? Estão falando de água e Jesus do nada pergunta onde está o marido da
mulher?
O que está
sendo conversado ali é que Jesus se utilizando de uma linguagem humana de um
homem para com uma mulher de vida fácil, entende-se que a água proposta por
Jesus é o líquido que de um homem sai capaz de gerar vida em uma mulher dando
continuidade a um povo... Parece ser uma cantada mesmo!!! Mas só parece pois
Jesus vai além do natural.
Na cultura
oriental no caso a judaica, se sabia que se um homem se interessar por uma
mulher, e se essa mulher (que apanhava água naquela hora) tinha um marido que
não queria mais ela, ele precisava pagar o dote ao marido para que pudesse
ficar com ela. Nesse sentido Jesus pergunta pelo marido daquela mulher.
No discorrer
da conversa que agora tomava um rumo altamente espiritual pois Jesus revelava a
condição daquela mulher.
A mulher respondeu, e disse: Não tenho
marido.
Disse-lhe Jesus: Disseste bem: Não tenho
marido; Porque tiveste cinco maridos, e o que agora tens não é teu
marido; isto disseste com verdade.
Disse-lhe a mulher: Senhor, vejo que és profeta.
João 4:17-19
Ao revelar a
condição daquela mulher samaritana, ela entende que o Judeu que conversava com
ela, não estava falando diretamente dela, mas do povo que ela representa visto
que os Samaritanos são tidos pelos Judeus como um povo mestiço que se entregou
outrora aos deuses pagãos.
Na época do
Reino dividido, os Judeus pertenciam ao Reino do Sul (Judá e Benjamim), e os
Samaritanos ao reino do Norte (as outras 10 tribos incluindo Manassés pai de
Siquem). Ao serem dominados pelos Assírios, o reino do Norte foi misturado
etnicamente com seus dominadores, o que levou-os a serem hostilizados por seus
irmãos do sul. Ou seja, os samaritanos são hostilizados pelos judeus por não
serem judeus puros pois outrora tinham se misturados com povos idólatras. O que
caracteriza mais etnocentrismo e sectarismo por parte dos judeus.
O fato é que
Jesus desde o princípio queria levar aquela mulher a uma reflexão. Logo na
sequência ela questiona Jesus sobre o lugar certo da adoração – se o lugar dos
judeus ou o dos samaritanos. Talvez testando aquele homem judeu que acabara de conhecer,
mas já tinha percebido que não era um Judeu comum pois tinha acabado de revelar
um aspecto interessante de sua vida.
Ao Jesus
explicitar que o lugar de adoração não era importante, mas sim que o
relacionamento de Deus era pessoal, ela revela sua crença de que o Messias
seria essa pessoa que poderia elucidar tal questão, o que a leva a concluir que
Jesus era o Messias esperado.
Os discípulos
que não estavam ali no início da conversa não entendem o propósito de Jesus, e
nada além depois da explicação que ele daria depois.
Ele, porém, lhes disse: Uma comida tenho
para comer, que vós não conheceis.
Jesus disse-lhes: A minha comida é fazer a vontade daquele
que me enviou, e realizar a sua obra.
João 4:32-34
A
conversa com aquela mulher, apesar de ter se desenrolado de uma forma um tanto
heterodoxa ao nosso olhar ocidental, surtiu um efeito extraordinário naquela
mulher que levando seu testemunho, levou outros samaritanos a crerem em Jesus
de tal forma que eles entendem algo ainda mais fabuloso.
E diziam à mulher: Já não é pelo teu dito
que nós cremos; porque nós mesmos o temos ouvido, e sabemos que este é
verdadeiramente o Cristo, o Salvador do mundo.
João 4:42
A
promessa de Deus feita à Abraão, o patriarca dos Hebreus, dos Judeus e
Samaritanos registrada em Genesis 12 intenta que o povo exclusivo de Deus não
retivesse essa Divindade só para si... Mas que abençoasse todas as nações com o
conhecimento de Deus.
A
grande revelação aqui é que no Antigo Testamento como inicialmente apontamos ao
texto do profeta Oséias, que as idolatrias do povo de Israel figuravam como
prostituição do povo que não foi fiel ao seu Deus – Entenderam o mistério dos
vários “maridos” da mulher samaritana? Ela havia entendido que isso realmente
tinha acontecido... Mas agora uma nova revelação estava sendo oferecida. Era
Deus agora que estava se oferecendo a todos os povos. Deus tinha um povo
exclusivo seu, mas não era vontade Dele como ainda não é - ser exclusivo de um
povo só.
Deus
é Deus de todos os povos.
Aqueles
homens entenderam a mensagem – O Deus-homem não estava ali para ser salvador
dos Judeus como muitos estavam pensando, mas ele realmente veio a Terra para
ser salvador do Mundo. Semelhantemente à mensagem de Jesus ao mestre da Lei Nicodemos
no capítulo anterior de João. Deus amou o Mundo de tal maneira que deu seu
filho unigênito para que todo aquele que nEle cresse, não pereça mas tenha vida
Eterna.
Ele
Jesus ao final de todo aquele acontecimento, decide ficar ainda dois dias mais
com os samaritanos a fim de revelar esse amor Divino que não é exclusivamente
Judeu, não é exclusivamente Cristão (aplicação prática para hoje), não é
exclusivamente batista, assembleiano, presbiteriano ou qualquer outra etnia ou denominação
cristã ou não.
Jesus
ensina aqui mais uma vez que o relacionamento que Ele quer com o ser humano não
é exclusivo de um povo, mas como originalmente proposto por Deus a Abrão – de seu
povo escolhido para abranger toda a Terra. Que Deus que se utilizou no Antigo
Testamento a metáfora da prostituta que casa com o profeta que é obrigado a
amá-la apesar da sua infidelidade para exemplificar o relacionamento complicado
entre Deus e seu povo exclusivo. Agora no Novo Testamento Ele o Deus homem
Jesus Cristo revela um Deus que deseja sim se relacionar com todos os povos e
declara que não é exclusividade de Israel, dos Judeus ou de qualquer outro
povo.
Que Deus em Cristo nos abençoe
Alisson Lourenco
Teólogo, Psicanalista Clínico e Cientista da
Religião
Bibliografia:
BAILEY, Kenneth E. Jesus sob o Olhar do Oriente: As Parábolas de Jesus no Contexto Cultural do Oriente Médio. São Paulo: Vida Nova. (Obra indispensável para fundamentar a análise sobre as nuances culturais do poço, o horário da sexta hora e a interação homem/mulher no contexto semítico).
EDERSHEIM, Alfred. The Life and Times of Jesus the Messiah. (Oferece a base histórica sobre a hostilidade entre Judeus e Samaritanos e as implicações do Reino do Norte).
FREUD, Sigmund. Moisés e o Monoteísmo. (Apoia a reflexão sobre a construção da identidade de um povo e a relação com o "estrangeiro" ou o "mestiço").
JEREMIAS, Joachim. Jerusalém no Tempo de Jesus. São Paulo: Paulus. (Fornece dados sociais e econômicos sobre a condição da mulher e o papel do patriarcado na época).
KEENER, Craig S. Comentário Histórico-Cultural da Bíblia: Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova. (Sustenta a exegese sobre a estratégia de abordagem de Jesus e o significado dos "maridos" na perspectiva profética).
MORRIS, Leon. O Evangelho de João: Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova. (Analisa a transição do diálogo da "água" para a revelação espiritual e o conceito de "adoração em espírito e verdade").
TILLICH, Paul. A Dinâmica da Fé. São Paulo: Fonte Editorial. (Dialoga com a conclusão de que Deus não é exclusividade denominacional ou étnica, mas uma busca última que abrange todos os povos).
VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. São Paulo: Teológica. (Base histórica para o entendimento do dote, do casamento e das figuras tipológicas do Antigo Testamento citadas).
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