Igreja de Roma ou Igreja de Jerusalém? O Perigo de Judaizarmos o Cristianismo
"Mas a Jerusalém que é de cima é livre; a qual é mãe de todos nós." (Gálatas 4:26)
Existe uma declaração que tem ganhado força nos púlpitos contemporâneos: "Devemos cortar os laços com a Igreja de Roma e reatar com a Igreja de Jerusalém". Confesso que, em um primeiro olhar, essa frase soa sedutora ao historiador e ao cristão que busca pureza. Afinal, sabemos que a estrutura herdada de Roma, consolidada a partir do século III, trouxe consigo uma amálgama de ritos e práticas pagãs que contaminaram a simplicidade da fé cristã. A ideia de retornar a Jerusalém parece, inicialmente, um retorno à fonte límpida, uma fé sem as misturas do império.
No entanto, como pesquisador e observador da psique religiosa, entendo que o equilíbrio é onde reside o ensinamento de Jesus, enquanto os extremos são as armadilhas. A "Igreja de Jerusalém", se interpretada apenas sob o viés geográfico e cultural, torna-se um perigo tão grande quanto a de Roma.
A Armadilha da Judaização
O que observamos hoje é uma vertente da Teologia da Prosperidade que, em busca de novos mecanismos de controle, utiliza-se de símbolos e ritos judaicos para aprisionar os incautos. Ao "reatar" com Jerusalém de forma equivocada, líderes mal-intencionados resgatam práticas do Antigo Testamento que o próprio Messias já declarou cumpridas. Usam a Bíblia com eloquência, mas para um fim perverso: transformar fiéis em "gado" para proveito próprio.
Se a Igreja de Roma peca pela introjeção do paganismo, essa "nova Jerusalém terrena" peca pelo retrocesso legalista. Jesus foi judeu, mas foi Ele quem deixou claro que as práticas anteriores atingiram seu propósito e foram superadas pela Nova Aliança (Mt 5:17; Gl 3:24). Judaizar o cristianismo hoje não é um retorno à pureza, é uma negação da eficácia da Cruz.
A Liberdade da Jerusalém Celestial
O evangelho, que originalmente é um agente de libertação, não pode ser usado para amarrar as pessoas a calendários, vestimentas ou ritos que já não possuem valor salvífico. A nossa busca não deve ser por uma sede administrativa ou histórica na terra — seja ela a Roma dos Papas ou a Jerusalém dos sacrifícios.
Nossa identidade não está fundamentada em uma linhagem sanguínea ou institucional terrena. Devemos anunciar que a igreja hodierna só é verdadeiramente livre quando reconhece sua cidadania na Jerusalém de Cima. Essa Jerusalém não é um museu de práticas antigas, nem um centro de poder político; ela é a mãe de todos nós, alcançada exclusivamente pela graça e pela fé. Tornemo-nos hoje cidadãos do Reino Celestial, onde a liberdade é o fundamento e Cristo é a única cabeça.
Teólogo, Cientista da Religião e Psicanalista - Pastor Alisson Lourenco
Bibliografia:
ALENCAR, Gedeon. Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011. Rio de Janeiro: Novos Diálogos, 2013. (Para entender a transição litúrgica e as influências institucionais no Brasil).
GONZÁLEZ, Justo L. Uma História Ilustrada do Cristianismo. São Paulo: Vida Nova. (Referência para a análise da contaminação pagã na Igreja de Roma a partir do século III).
MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: Sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Loyola, 1999. (Base para a crítica à Teologia da Prosperidade e ao uso de símbolos judaicos no neopentecostalismo).
STOTT, John. A Mensagem de Gálatas. São Paulo: ABU Editora. (Comentário exegético essencial sobre a liberdade cristã e a Jerusalém de cima).
TILLICH, Paul. História do Pensamento Cristão. São Paulo: ASTE, 2004. (Para fundamentar a evolução dos dogmas e a influência da cultura romana na fé cristã).
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Alisson Lourenco