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42 - Ensaio sobre as Relações entre Cultura, leitura e uso da Bíblia



01 - A cultura como método empírico de interpretação das Escrituras – Não se deve adotar uma visão de cultura de forma restrita em relação às manifestações do ser humano. Essa visão deve ser holística, considerando todos os aspectos que nos fazem compreender quem somos, quem fomos e em que nos tornaremos. A cultura define as relações humanas de um povo, e se um indivíduo interpreta uma determinada passagem das escrituras sagradas, certamente “está no pacote” dessa interpretação toda uma bagagem cultural desse intérprete. A passagem bíblica em questão seja lá qual for já foi escrita dentro de um contexto sociocultural e sua interpretação literal deve levar esse detalhe em consideração a fim de se chegar a uma conclusão sensata. Já uma interpretação metafórica ou aplicada em contexto contemporâneo deve ser feita com muita cautela já que provavelmente, como já foi mencionado, essa interpretação será influenciada pela tal “bagagem cultural” de quem quer que seja – Falaremos mais sobre isso no terceiro tópico. A Bíblia foi escrita em contextos diversos por pessoas que mesmo sendo de um mesmo povo (Judeu), passaram por processos culturais distintos ao longo de cerca de mil e quinhentos anos (período de formação do texto sagrado, antigo e novo testamento), para chegar às mãos e ser lida por tantas outras pessoas de culturas diferentes, não para destruir seus processos ou desaprová-los simplesmente, pelo contrário, pela adoção de uma nova perspectiva de vida, apresentar-lhes um novo olhar sobre uma mesma construção sociocultural desses mesmos povos. E é sobre isso que passaremos a discutir a seguir.

 “Todo ponto de vista é a vista de um ponto. Para entender como alguém lê, é necessário saber como são seus olhos e qual é a sua visão do mundo” BOFF, Leonardo. A águia e a galinha: uma metáfora da condição humana.  Editora Vozes, 1998. p.9

02 - As Escrituras devem ser lidas como método de interpretação de uma cultura – No processo de conversão de um indivíduo ao Cristianismo, não somente em relação ao psicológico, mas considerando principalmente sua estrutura de formação enquanto parte de uma sociedade e de agora em diante como parte de uma comunidade de fé, tudo isso é confrontado com o conteúdo das Escrituras, que o analisa e tem poder para transformá-lo em todos esses mesmos aspectos. Em todo esse processo é importante enfatizar, que esse fenômeno não significa destruir um contexto antigo e adotar um novo, na verdade se isso acontecer, o que era pra ser salutar se torna danoso. O que na verdade precisa ocorrer para visualizarmos um milagre é transcender tudo aquilo que se conhece, que se aprendeu e entender, enxergar de outra forma, com outros olhares. Em outras palavras é subordinar os fundamentos culturais de um indivíduo a outro fundamento mais relevante, sem desconstruí-lo, no entanto. A importância da centralidade das Escrituras como norte da caminhada de fé e estilo de vida de um indivíduo está na análise de sua cultura que o norteou durante sua existência antes da conversão. Significa que ainda carregamos nossa cultura, porém através de uma nova leitura. Esse processo que se dá de forma individual também ocorre de forma coletiva em um povo. Aplicar as Escrituras à uma determinada cultura de forma impositiva ou substitutiva é violento. Esse processo deve ser gradativo. E é esse processo é que produz as comunidades cristãs entre diferentes culturas ao longo da história da humanidade. É impossível resolverem-se problemas culturais de um povo de forma simplória sem se equivocar em seu intento. O processo de interpretação de uma cultura pelo Evangelho demanda várias gerações. O foco principal desse nosso discurso é entender o esforço de cristãos de origens diversas em reunir Evangelho e Cultura. Uma ferramenta interessante para entender esse processo é entendê-lo como isso ocorreu com o povo de Israel (povo judeu que de modo geral abrigou culturalmente todos os escritores bíblicos), pois assim que interpretamos as experiências e cultura de um povo através das nossas experiências e cultura, descobrimos a verdade sobre nós mesmos. As Escrituras e o Evangelho nos interpretam com o fim de nos dar a oportunidade de destruir muros e construir pontes.

“A Bíblia é a mãe de todas as heresias” – D’ARAÚJO FILHO, Caio Fábio – Programa The Noite, SBT dia 23/06/2014 – Sobre o fato de que uma interpretação errônea das Escrituras pode gerar anomalias mil no processo de formação de um caminho de fé baseado no texto sagrado das Religiões Judaico-Cristãs.

03 - O processo de formação de uma religião através da interpretação das Escrituras por determinada cultura – A Bíblia Sagrada mais especificamente o Antigo Testamento, fala como se deu o relacionamento de Deus o criador com o povo de Israel e como esse relacionamento interagiu em suas relações culturais. Isso fica ainda mais claro no Novo Testamento quando da formação da Igreja que avança nesse relacionamento envolvendo outras culturas (chamadas gentílicas) evidenciando várias análises distintas que chegam a uma mesma conclusão: As Escrituras Sagradas foram formadas pelas relações culturais de vários povos com um Deus pessoal que demandou um contato íntimo com o ser humano para transformá-lo não em relação à sua estrutura sociocultural, mas que ele pudesse enxergar essas relações sob um novo aspecto, uma nova visão. Logo se conclui que as Escrituras são os registros da Religião. Vieram depois que os fatos ocorreram e assim puderam ser registrados para a posteridade. Essa conclusão nos leva a seguinte afirmação: A Religião gerou registros depois de sua formação que foram agregados mediante uma metodologia de avaliação subordinada aos registros da Religião que anteriormente teria sido formada também antes de seus registros, a saber, Cristianismo e Judaísmo respectivamente por exemplo.
A Igreja Católica Apostólica Romana em sua construção teológico-doutrinária decidiu priorizar pela Unidade da Religião em detrimento da Verdade, ou seja, ela miscigenou culturas, experiências e interpretações distintas das Escrituras e até de outros registros religiosos (não cristãos), e nomeou como cristãos para garantir a “Unidade”. Séculos mais tarde isso gerou insatisfação por parte dos pré-reformadores e reformadores que iniciaram uma busca e defesa pela Verdade, e por essa Verdade acabaram por abandonar a Unidade defendida por seus predecessores, que gerou pela Reforma as diversas confissões protestantes existentes. Essas divergências doutrinárias, fruto da busca pela Verdade, não se iniciaram com a Reforma em 1517 gerando o Movimento Protestante, mas antes no Grande Cisma da Igreja em 1054 quando a Católica Apostólica Romana divergiu das Igrejas do Oriente que formaram a Católica Apostólica Ortodoxa que é afinal um exemplo fantástico em seu estudo específico, pois reúne em si as doutrinas do Cristianismo sem alterar as culturas dos povos onde está inserido o que torna esses povos tão diferentes culturalmente falando, mas iguais na doutrina Cristã.

Por fim um último e perigoso viés da interpretação das escrituras por uma determinada cultura no processo de formação de um caminho de fé é quando isso ocorre, por exemplo, em manifestações religiosas dissidentes do Cristianismo como os Santos dos Últimos Dias (Mórmons) e as Testemunhas de Jeová que construíram suas bases doutrinárias em interpretações das Escrituras feitas pelos lideres dessas comunidades cristãs trazendo doutrinas particulares. Outra leitura interessante sobre o caráter da interpretação das Escrituras por determinada cultura é a formação da Teologia não reformada da Libertação e a Teologia reformada da Prosperidade, que são registros cristãos contemporâneos dentro de realidades culturais neolatinas semelhantes no séc. XX. Talvez seja difícil entender como se deu esse processo que ocorre nessas manifestações religiosas devido ao fato que consideramos a Bíblia como um livro religioso, pois fomos ensinados assim, e fomos acostumados a ler como lemos e onde nenhuma outra leitura é possível. O que será que aconteceria se fossemos ensinados que a Bíblia é um registro histórico somente? Ou um livro de Mitologia Hebraica nos mesmos moldes da Mitologia Grega ou Escandinávia? O que aconteceria se Martinho Lutero, quando chegara às suas conclusões teológicas em vez de ter dado início à reforma protestante (apesar de que entendemos que ele não intentou criar a reforma apesar de tê-la criado), saísse da Igreja Católica Romana e fosse pra Ortodoxa Grega ou mesmo Copta? Ficam aqui essas reflexões.

Teólogo, Cientista da Religião, Psicanalista e Pastor Alisson Lourenço

Notas de curadoria do artigo
  • A Perspectiva Ortodoxa: Minha menção à Igreja Católica Apostólica Ortodoxa como modelo de manutenção da doutrina sem aniquilação da cultura local é um "insight" precioso em nosso Portal. Isso demonstra a inclinação para a Religião Comparada.
  • Heresia e Interpretação: Ao citar Caio Fábio sobre a Bíblia ser "mãe de todas as heresias", eu trago a provocação necessária para a Hermenêutica Crítica: o problema nunca está no texto, mas no intérprete que ignora o contexto sociocultural.
  • Reflexão Final: Minha pergunta sobre Lutero migrar para a Igreja Copta ou Ortodoxa em vez de romper com Roma é um exercício de História Contrafactual necessário.

Bibliografia:

  • BOFF, Leonardo. A águia e a galinha: uma metáfora da condição humana. 4ª ed. Petrópolis: Vozes, 1998. (Fonte direta citada no texto para fundamentar a perspectiva do observador).

  • GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2008. (Essencial para o primeiro tópico; Geertz define cultura como uma "teia de significados" que o homem tece, o que dialoga com sua visão de "bagagem cultural").

  • GADAMER, Hans-Georg. Verdade e Método. Petrópolis: Vozes, 1997. (Fundamental para a discussão sobre a interpretação contemporânea e a "fusão de horizontes" entre o texto antigo e o leitor atual).

  • NIEBUHR, H. Richard. Cristo e Cultura. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967. (Obra clássica que analisa as cinco posturas do cristianismo frente à cultura, essencial para o segundo tópico sobre "Evangelho e Cultura").

  • TILLICH, Paul. Teologia da Cultura. São Paulo: Fonte Editorial, 2009. (Sustenta a tese de que a religião é a substância da cultura e a cultura é a forma da religião).

  • WARIER, Jean-Pierre. A mundialização da cultura. Bauru: EDUSC, 2003. (Para apoiar a análise sobre o Grande Cisma e as diferenças entre a unidade romana e a diversidade ortodoxa).

  • LOPES, Augustus Nicodemus. A Bíblia e seus Intérpretes. São Paulo: Cultura Cristã. (Para o contraponto acadêmico sobre hermenêutica reformada mencionada no terceiro tópico).

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